Você saberá quando chegar a hora

[[ATENÇÃO]] O texto abaixo caracteriza-se como ficção! Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Em tempos de seca na cidade de São Paulo, decidi postar este texto que escrevi seis anos atrás. Longe de mim querer fazer qualquer tipo de “premonição” do fim dos tempos, mas talvez esse conto faça com que você pare e pense nos seus atos que, mesmo que pequenos, podem remediar tal distopia.

PS: Juro que enquanto digitava o post de hoje, escureceu e só percebi que começou a chover quando tive que acender a luz da sala e encostar as janelas. (Sai mandinga!)

[Trilha sonora] Escute enquanto lê –>

Linkin Park – What I’ve Done (CD Minutes To Midnight – 2007)

Scalene – Silêncio (CD Real/Surreal – 2013)


Você saberá quando chegar a hora

Ela caminhava em meio a paranoia que era evidente nos olhos de cada um. O sol estridente fazia suas longas madeixas loiras ofuscarem.

Tudo estava um caos. Muitos optaram por ir embora, o que fez com que ruas, avenidas e alamedas ficassem abarrotadas. A gritaria insana corrompia o silêncio habitual. Nada estava certo, nada mais fazia sentido.

Há cinco anos que não chovia, o solo já havia ganhado um aspecto quebradiço há quase uma década, na mesma época em que o abastecimento de água potável foi reduzido para uma vez ao mês. A última gota d’água que caiu do céu, algumas semanas atrás, não conseguiu nem molhar o chão. O ar árido havia levado os hospitais a triplicar a prestação de serviços. Os mais novos e os mais velhos não suportavam. Logo que o governo anunciou que, com o tempo, o aquecimento seria fatal não só ao meio ambiente, como também aos seres humanos, as mortes sob o sol escaldante foram implacáveis.

Porém, mesmo com essa desordem e desespero geral, parecia que nada a havia afetado. Nem mesmo a corrente de vento seguida por uma poeira fina, que fez com que muitos parassem de chofre, não a impediu de continuar sua caminhada entre o alvoroço. Parecia que estava determinada à chegar ao seu destino final.

Vi, ao acompanhá-la pelas largas avenidas da cidade, pessoas conhecidas, familiares e velhos amigos. Contudo, ambas não paramos. Era horrível ver tanta gente, a cada esquina que passávamos, despedaçar aos poucos com as esperanças esgotadas e com o desespero por um gole de água latente nos olhos cansados.

Ao continuar caminhado, ela passou a sussurrar algo inaudível. Sem entender, tentei me aproximar, mas era tarde demais. Ela estava no meio de onde, antes, havia um lago. Ela se abaixou e pôs uma das mãos no solo árido. O vento e a luz do impiedoso sol que refletia no chão levantou os cabelos dela, me jogou para trás…

Quando abri os olhos e me levantei, não acreditei no que via. Estava em minha casa e, além da janela, meu pior pesadelo acontecia. Abri a porta e saí desenfreada. Tive a estranha sensação de repetir os mesmos passos. Não encontrei com ela, apenas continuei correndo sem saber o que fazer.

Ao chegar na beira do suposto lago, minhas pernas oscilaram, estava igual como estivera há cinco anos, seco, sem vida. Fui até o centro dele. Tinha que fazer algo, não poderia terminar assim! Me abaixei, coloquei a mão no solo pela última vez. A areia carregada pelo vento entrou nos meus olhos e levantou meus cabelos. A luz que irradiava do sol era mais forte do que nunca. E tudo escureceu. O silêncio da penumbra era esmagador. A vida havia caído por terra.

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