Lady Gaga transcende o pop no ótimo e intimista ‘Joanne’

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Após um período dedicando-se a projetos na TV, cinema e uma parceria de sucesso com o lendário cantor de jazz, Tony Bennett, Lady Gaga voltou com seu projeto musical próprio. Três anos após Artpop, a cantora lançou ontem o álbum Joanne, seu quinto disco de estúdio.

Diferentemente do que muitos esperavam, a cantora de Bad Romance fez o seu retorno com uma sonoridade bem diferente de tudo o que já fez até então. Longe do eletropop dos discos anteriores, usando menos sintetizadores e deixando de lado músicas prontas para as boates, Gaga chega mais “crua” do que nunca. Explora ainda mais sua voz e aposta em uma mistura de pop rock, indie e country em Joanne.

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Das 14 faixas da versão deluxe do disco, Lady Gaga produziu e escreveu todas, e contou com o apoio de Mark Ronson (famoso pelo hit Uptown Funk com o Bruno Mars e que já produziu pra Amy Winehouse e Christina Aguilera) e BloodPop (fez inúmeras músicas do Purpose do Justin Bieber e do Rebel Heart da Madonna). É com o trio Gaga, Ronson e BloodPop, que Joanne ganha vida.

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1. Diamond Hearta faixa que abre os trabalhos de Joanne tem uma pegada mais rock que beira o country em determinados momentos, algo semelhante a Perfect Illusion, primeiro single do disco. O tom mais rock na faixa tem uma explicação: além de Gaga e do Mark Ronson, um outro colaborador na letra e que assina a co-produção da música é Josh Homme, vocalista do Queen of the Stone Age (ele ainda co-assina a composição de John Wayne). A canção fala do abuso sexual que Gaga sofreu aos 19 anos.

“Some asshole broke me in, wrecked all my innocence (um cuzão me quebrou, destruiu minha inocência)”.

O refrão não chega a ser chiclete na primeira audição, mas vicia após alguns repeats. A música reflete bem essa nova fase da cantora.

2. A-YOse Diamond Heart não tem um refrão que cola na sua mente logo de cara, o mesmo não se pode dizer de A-YO. É provavelmente a música mais chiclete do álbum. Super pra cima, a faixa é um pop rock oitentista, cheio de rifes de guitarra. As batidas e a sonoridade lembram That’s Not My Name do duo The Ting Tings, ou seja, sucesso certo nas baladas indie, haha! Sem dúvidas, é uma das minhas músicas favoritas do disco.

3. Joannea faixa título traz uma Lady Gaga bem diferente de tudo o que você já viu e ouviu. Bem intimista e na base do violão. O country domina todo o arranjo da música, tanto que a canção seria facilmente gravada por grandes nomes do gênero como Carrie Underwood, Miranda Lambert, Rascal Flatts, Blake Shelton, etc. A letra em homenagem à sua tia Joanne, que morreu aos 19 anos de lúpus, é intensa e bem triste. A voz de Gaga é carregada de emoção, tristeza e ao mesmo tempo força. A música te conquista pela simplicidade.

4. John Waynequando John Wayne começou a tocar só consegui cantar “Show me your teeth. Show me your teeth“, se você é little monster, com certeza associou a batida à Teeth, música presente no segundo disco de Gaga, o The Fame Monster. Aqui Gaga canta uma produção pop rock, que usa alguns sintetizadores (algo pouco explorado neste disco). É uma boa faixa, mas não entra no meu Top 5 de músicas do Joanne. A letra parece falar de Taylor Kinney (ex-noivo da cantora) no trecho: “Charged up, ‘cause the man’s on a mission. 1-2 ya, the gears are shiftin’. He called, I cried, we broke. Racin’ through the moonlight (Carregado, porque o cara está numa missão. Um a dois anos, as engrenagens estão mudando. Ele me ligou, eu chorei, nós terminamos. Correndo sob a luz da Lua). 

5. Dancin’ In CirclesQUE MÚSICA MARAVILHOSA! Entre um pop rock, beirando o indie, e o country em algumas faixas, Gaga entrega praticamente uma música latina em Dancin’ In CirclesParece que baixou o espírito da Thalía e daí nasceu essa música gostosa, toda trabalhada no ritmo latino. Além do trio Gaga/Ronson/BloodPop, o cantor Beck, que já venceu 5 Grammys na carreira (incluindo Álbum do Ano em 2015), também colaborou na composição da faixa.

6. Perfect Illusiono tom mais rock que ouvimos em Diamond Heart volta no primeiro single do álbum. Bem, já fiz uma análise mais detalhada sobre Perfect Illusion em um post anterior aqui no Cultura (veja aqui). Mas, acho que vale ressaltar que gosto muito dessa música. Letra viciante, vocais fortes e bem postados, e uma energia sem igual na balada (sim, funciona bem em baladas pop).

7. Million Reasonsvoltando para a pegada country, Gaga chega com a melhor faixa do álbum. Million Reasons é a baladinha romântica que faltava na discografia de Lady Gaga. A cantora mostra delicadeza ao entoar alguns versos e toda a sua potência vocal no refrão. Essa oscilação vocal unida ao ritmo do piano e violão, dão um toque especial à canção. Eu diria que a música tem boas chances de concorrer e até vencer algum Grammy em 2018, quando o Joanne poderá disputar o gramofone dourado. Além disso, Gaga convocou Hillary Lindsey para compor Million Reasons junto com Mark Ronson. Pra quem não sabe, Hillary compõe para grandes artistas country. Além de ser a compositora favorita da Carrie Underwood, Hillary compôs, por exemplo, Fearless da Taylor Swift e Medicine da Shakira com o Blake Shelton. Já venceu 2 Grammys de Melhor Canção Country, um com a Carrie em 2007 e outro este ano com o grupo Little Big Town. Com Gaga, além dessa, Hillary colaborou em A-YO.

8. Sinner’s Prayerainda usando botas e o chapéu de cowboy, em Sinner’s Prayer, Gaga cita sua irmã mais nova, Natalie, falando que as duas se parecem muito, por se apaixonarem rapidamente, mesmo que seja um amor seja doentio. A música tem instrumentais de banjo e um som que lembra filmes de faroeste (já até imagino como seria um videoclipe para essa música). No geral, é uma ótima canção.

9. Come to Mamathe Mother Monster is back! Em Come to Mama, Gaga chama todos os seus little monsters, a comunidade LGBT e todas as pessoas dispostas a espalharem o amor no mundo. Ela faz alguns apelos, como pedir aos intolerantes que parem de jogar pedras em seus irmãos e irmãs; que as pessoas parem de tentar derrubar uns aos outros; e parem de querer impor a forma “correta” como o outro deve viver sua vida. O arco-íris, bandeira LGBT, é citado em alguns versos. Em relação à sonoridade, Gaga traz um pouco de soul, e me fez lembrar de músicas do cantor canadense Michael Bublé.

10. Hey Girl feat. Florence Welch: a décima faixa traz a única parceria do disco. E que parceria hein, PQP! Pra nova fase pop rock/indie/country, Gaga chamou ninguém menos que a Rainha das Fadas, Florence Welch, do Florence + The Machine para o dueto em Hey Girl. Escrita pelas duas cantoras e novamente Mark Ronson, a canção pede para que as mulheres se unam e não fiquem umas contra as outras (claramente o que acontece na música Pop desde sempre). Além da letra de empoderamento feminino, Hey Girl traz duas das melhores vozes da atualidade. Gaga e Florence fazem um dueto de puro talento e “soul”. Depois de Million Reasons, Hey Girl é a minha faixa favorita em Joanne.

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11. Angel Downa última faixa da versão deluxe é carregada de drama, tanto na voz de Gaga quanto na letra. A letra remete a pessoas, sobretudo jovens, que são mortos em massacres em casas noturnas ou simplesmente por serem negros (acredito que Gaga faz referência a esses casos). E ela questiona: Where are our leaders? (Onde estão nossos líderes?).

“Shots were fired on the street by the church where we used to meet. Angel down, angel down. Why do people just stand around? I’m a believer, it’s a trial. Foolish and weaker, oh, oh, oh. I’d rather save an angel down. I’m a believer, it’s chaos. Where are our leaders? Oh, oh, oh. I’d rather save an angel down”.

(Tiros foram dados na rua perto da igreja onde costumávamos nos encontrar. Anjo abatido, anjo abatido. Por que as pessoas só ficaram paradas olhando? Eu acredito, isso é um teste. Tolo e fraco, oh, oh, oh. Eu prefiro salvar um anjo abatido. Eu acredito, é o caos. Onde estão os nossos líderes? Oh, oh, oh. Eu prefiro salvar um anjo abatido.)

Quanto a produção, as semelhanças com o Florence + The Machine são mais evidentes aqui. Até pelo peso da canção e o seu significado, o instrumental de harpa (muito utilizado nas produções do Florence), torna-se algo adequado à música.

12. Grigio Girlsa primeira música da versão deluxe do álbum fala sobre os momentos da carreira de Gaga antes da fama e também é uma homenagem à amiga Sonja Durham, diagnosticada com câncer de mama no ano passado. A música é bem pessoal e segue a linha country.

13. Just Another Dayescrita apenas por Lady Gaga, Just Another Day tem uma vibe positiva, bem boêmia. Gaga ainda convoca o trompetista de jazz, Brian Newman, para tocar na faixa.

14. Angel Down (Work Tape)a última faixa do disco, é uma nova roupagem para Angel Down, dessa vez produzida pelo RedOne, produtor dos álbuns anteriores de Gaga.

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Lady Gaga voltou com o álbum mais pessoal de sua carreira. Deixou de lado o eletropop que a popularizou, e se arriscou em novos estilos, como já vinha fazendo desde o seu projeto de jazz com Tony Bennett. Pouquíssimos artistas têm essa habilidade de metamorfose, de se reinventar e conseguir caminhar bem pelos diversos gêneros musicais.

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Gaga precisava desse tempo de experimentação em outras áreas da música e da arte. Precisava desse descanso de sua imagem, que estava desgastada após o término da era Born This Way. As pessoas (em geral, não os fãs, obviamente) estavam cansadas de ler notícias sobre as roupas que a Mother Monster usava para ir ali comprar pão. E Gaga, aparentemente, também cansou disso, pois viu sua música ficando em segundo plano. Com essa nova fase, a cantora adotou um visual “clean”, convencional, mostrando que quer ser reconhecida por sua música, não por sua roupa.

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Joanne é um divisor de águas na carreira da Lady Gaga, pois transcende o pop e amplia o público da cantora. Quem nunca escutou suas músicas ou revirava os olhos por ela ser do “pop” ou ser a “mulher que vestiu uma roupa de carne”, hoje pode enxergar melhor o verdadeiro talento por trás do nome Lady Gaga. Uma vencedora de Grammys, Globo de Ouro, Emmy, indicada ao Oscar e que será atração do Super Bowl 2017.

Joanne abre novos horizontes para Lady Gaga e é o ar fresco que ela precisava para voltar ao topo e aos braços do público.

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PS. 1: a cantora está fazendo uma série de shows em bares no EUA, a Dive Bar Tour (revivendo os velhos tempos).

PS. 2: Gaga também está lançando uma websérie chamada Making Joanne, mostrando um pouco do processo de criação do álbum. Assista ao primeiro episódio aqui.

PS. 3: Escute o álbum no Spotify (deixei o link abaixo), curta o post se gostou, comente e compartilhe!

 

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2 comentários em “Lady Gaga transcende o pop no ótimo e intimista ‘Joanne’

  1. Gostei da sua resenha. Parabéns!
    Só para complementar, a faixa Diamond Heart fala dos tempos em que ela era dançarina, anos antes dela lançar o The Fame. Para mim, é uma das melhores faixas do álbum, sua letra é sincera e profunda (assim como todas as outras). A faixa John Wayne é um dos destaques, merece ser single. E Grigio Girls é uma bela canção, além de ser uma linda homenagem de Gaga para sua amiga Sonja, e o coral de vozes no final da canção faz seu coração derreter.
    Enfim, Joanne é um ótimo álbum da Gaga, pois ela se despiu de tudo que era para fazer esse lindo trabalho, e mais uma vez ela inovou nas suas músicas e se reinventou, criando um trabalho mais maduro e autêntico, diferente do que está tocando nas rádios. É muita coragem por parte dela, e isso é uma das suas qualidades. Não é qualquer artista que consegue fazer trabalhos tão distintos.

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