Gilmore Girls Revival – Um Ano para Recordar

Após muitos anos, nove para ser exata, e muita especulação, finalmente tivemos mais um gostinho de Gilmore Girls, só que ele foi agridoce.

Antes de falar do Revival vou fazer um breve resumo sobre a série regular, caso alguém não saiba do que se trata ﴾onde você estava?). Comecei a assistir uma série no SBT que se chamava Tal Mãe, Tal Filha, em meados de 2002, uma série que explorava a relação entre mãe e filha de um forma que eu nunca havia visto. Confesso, me parecia uma relação utópica e por isso gostava ainda mais. Lorelai (Lauren Grahan) era uma mulher solteira, que havia saído da casa dos pais, aos 16 anos, grávida. Optou por não casar com o pai da sua filha e reconstruiu um novo lar para ela na cidade de Stars Hollow. É na cidade que Rory (Alexis Bledel) cresce e se torna, o que na época era comum dizer, uma boa garota, estudiosa, amada por todos, compreensiva e leal. Nesse contexto, Rory, então com 15 anos, é aceita para estudar em Chilton, uma escola particular. Lorelai, que vem de uma família rica e tradicional americana, recorre aos seus pais para um empréstimo com o intuito de pagar os estudos da filha. Emily (Kelly Bishop) então faz um acordo, empresta o dinheiro desde que Lorelai e Rory jantem com ela todas as sextas, agarrando a chance de participar da vida da neta  ativamente.

Então, passamos sete temporadas acompanhando os encontros e desencontros das três gerações das garotas Gilmore. A série é conhecida pelos diálogos rápidos, referências ao mundo pop e a literatura e ao consumo excessivo de café.

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A última temporada não contou com a produção da criadora da série, Amy Sherman-Palladino, por desentendimento com o canal CW, que veiculava a série nos EUA. Muitos fãs reclamam da última temporada e estavam no aguardo de um filme ou continuação que tivesse a produção de Amy. Pois bem, a Netflix resolveu esse problema, conseguiu trazer todo o elenco original para mostrar um ano da vida das garotas Gilmore, produzido pela Amy. E no último 25 de novembro trouxe os quatro episódios de Um Ano para Recordar: Inverno, Primavera, Verão e Outono.

Se você não assistiu o Revival e não gosta de spoilers, recomendo fechar esse post e voltar depois. Se você não tem problemas com isso, let’s go.

rory

Durante as sete temporadas foram construídos certos arquétipos para as personagens. Nesses novos episódios eles foram quebrados espetacularmente. A Rory era a personagem que mais espelhava a minha geração. Garota estudiosa, devoradora de livros, que sonhava em fazer faculdade, viajar o mundo e escrever sobre isso. Te lembra alguém? Com os últimos posts que li sobre a série e principalmente sobre a Rory, eu percebi o quanto essa personagem era importante para nós e o quanto tínhamos nela uma inspiração e acreditávamos na ideia de boa garota. O que é uma imbecilidade, não existem boas ou más garotas, existem apenas garotas, com suas complexidades, qualidades e falhas. Mas de alguma forma compramos a ideia de perfeição da Rory, uma perfeição que ela acreditava e que todos na vida dela, amigos, namorados e parentes reforçavam. E quando alguém dizia o contrário (Alô, Sr. Huntzberger) era uma pessoa escrota e portanto sempre descartada. Mesmo que ele tenha levado Rory a uma crise existencial, foi um ponto fora da curva em toda a série. E no Revival a Amy quebra essa expectativa de perfeição na Rory e eu achei que precisávamos disso, público e personagem. Inclusive um dos melhores momentos é quando falam para Rory se juntar aos Millennials, que estão na cidade e que após se formarem e viajarem o mundo, foram cuspidos na casa dos pais novamente pela vida.

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Stars Hollow

A cidade é uma personagem tão importante quanto o elenco, o clima de interior e as pessoas excêntricas de Stars Hollow são um ingrediente poderoso para série. Por isso foi extremamente nostálgico assistir as reuniões dos moradores presidida pelo Taylor (Michael Winters), as ideias nosense do Kirk (Sean Gunn), o musical para contar a história da cidade, que ocupou muito tempo de vídeo no episódio, mas que é tão a cara da série e de tudo que acontece em Stars Hollow que no fim a gente releva. Os momentos mais importantes foram passados ali.

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Todos os episódio são movimentados por um acontecimento, a morte de Richard Gilmore (Edward Herrmann), o ator faleceu em 2014. O impacto que isso vai causar na vida das garotas é explorado em todos os episódios.

Emily Gilmore

Sem dúvida a mais abalada pela morte de Richard é a Emily. Casados há 50 anos ela se vê perdida sem o seu companheiro e passa por uma forte desconstrução até o fim dos episódios. A relação entre ela e Lorelai sempre foi conflituosa e repleta de acusações. Após um papelão de Lorelai no velório, a relação das duas está mais abalada do que nunca e Emily se afasta do mundo em que sempre viveu. Contrata uma empregada, com quem mal consegue conversar por causa da diferença de língua, que traz toda a sua família para a mansão Gilmore. Começa a desapegar das coisas conforme A mágica da Arrumação  e manda às favas suas amigas socialites. No fim ela entende que aquela era a sua vida com Richard e agora ela precisa de uma vida diferente, então nesses episódios ela vai construindo isso, com altos e baixos, e no último episódio ela alcança esse lugar que ela não sabia que queria, mas que a deixa em paz agora. E só foi possível o desapego completo quando Lorelai se retratou pelo velório e demonstrou a importância do seu pai.

Lorelai Gilmore

A Lorelai é quase um caso perdido. Quando assistia as temporadas regulares eu dava muita razão para ela, na maioria das vezes achava que a Emily estava errada mesmo. Hoje, revendo a série e assistindo os novos episódio, percebo o quanto a Lorelai é imatura. Sua postura de fazer burradas e ter dificuldade de pedir desculpas, um defeito da Rory também, é aceitável até determinada idade. O que ela faz no velório é ridículo de tantas formas que tenho dificuldade de expressar em palavras o quão decepcionante foi. Porém, se tem um coisa que a Emily faz bem é empurrar Lorelai ao limite, questionar suas decisões e fazer com que ela repense coisas da sua vida. E talvez o ponto mais sensível que foi tocado aqui foi a questão da Lorelai sempre fazer as coisas do jeito dela, sem levar em conta como isso impacta as pessoas que estão a sua volta, ela é um furacão que vai passando e derrubando tudo.

Essa é a desconstrução dela, repensar o que ela escolheu para os outros e o que foi escolhido em conjunto. No último episódio ela resolve fazer a trilha do Pacific Crest, a mesma do livro/filme Wild  e de um jeito bem Lorelai de ser, ela não consegue começar a trilha nunca por vários motivos, e ao ir procurar café e encontrar o estabelecimento fechado, ela sobe uma trilha entre a paisagem e ali tem a epifania que ela procurava. Ali ela liga para sua mãe e coloca para fora o que precisa ser dito desde o velório do seu pai e então ela consegue colocar sua vida de volta nos trilhos. Um dos melhores momentos dela no Revival.

Rory Gilmore

Aparece na cidade depois de um tempo fora, teve um artigo publicado pela revista New Yoker e parece estar muito bem, mas a fachada dura só alguns minutos. Desempregada e sem ter onde morar, espalhou suas coisas pelas casas de amigos e parentes. Vive indo e vindo de Londres onde tenta escrever um livro com uma personalidade problemática que não dá certo. Namora há dois anos com um cara que ela sempre se esquece, sério, essa foi a pior coisa que fizeram com a personagem, era para ser engraçado, mas foi meio cruel essa atitude. Tem um caso com o namorado da época de faculdade, Logan (Matt Czuchry), que está noivo, com o  lema “O que acontece em Vegas, fica em Vegas”. A entrevista do emprego que ela quer é sempre remarcada, a ponto dela pedir ajuda para o Sr. Huntzberger, e quando ela faz a entrevista é tudo muito vago. Um site de jornalismo colaborativo que estava há anos atrás dela a chama para  uma conversa e ela topa, porém, chega completamente despreparada achando que a vaga era dela, o que também não dá certo. Acaba voltando a morar com a sua mãe e tenta salvar o Stars Hollow Gazzete, já que o editor se aposentou.

Nesse momento ela chega ao extremo da frustração com a sua vida e é salva por uma ideia do Jess (Milo Ventimiglia) em uma das melhores cenas, em que eles bebem Whisky de almoço, e ele sugere que ela escreva um livro sobre um assunto que só ela pode escrever, a relação entre ela e a sua mãe. Temos mais um desentendimento entre mãe e filha, dessa vez porque Lorelai não quer Rory escreva sobre a sua vida. Porém, após ambas pensarem no assunto e Rory sugerir que Lorelai leia os três primeiros capítulos antes de dar sua opinião final, fica decidido que ela escreverá o livro Gilmore Girls. Então, quanto tudo se encaminhava para ser um final tradicional de série, Rory fala as tais quatro palavras para Lorelai, iniciando um novo ciclo na vida delas.

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Todos os atores da série regular passaram pelos novos episódios, mesmo que tenha sido em uma única cena como o Dean (Jared Padalecki) e a Sookie (Melissa McCarthy). Mas, a melhor coadjuvante de todos os tempos foi e continua sendo a Paris (Liza Weil), suas cenas estão maravilhosas e a visita que ela e a Rory faz a Chilton para uma palestra é nostalgia pura.

Gilmore Girls sempre foi sobre mulheres e suas relações. O Revival só reiterou isso fechando o círculo entre mãe e filha. Nem tudo está do jeito que queríamos na série, mas sem dúvida dessa vez terminou como deveria terminar.

Se você gostou do post não esqueça de curtir, comentar e compartilhar:)

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