‘R.O.S.E.’ prova todo o talento de Jessie J

Após vencer o programa The Singer da China e quebrar um hiato de quatro anos, Jessie J está de volta. A britânica finalmente lançou seu quarto álbum de estúdio, R.O.S.E., acrônimo para R (Realisations – “Realizações”) O (Obsessions – “Obsessões”)S (Sex – “Sexo”) e E (Empowerment – “Empoderamento”). Jessie dividiu as 16 faixas do disco entre os quatro conceitos, lançando-os em quatro dias: 22/05 (Realisations), 23/05 (Obsessions), 24/05 (Sex) e 25/05 (Empowerment). R.O.S.E. é o sucessor de Sweet Talker (2014) e traz somente sete compositores além da própria Jessie, um número baixíssimo de pessoas envolvidas em um disco nos tempos atuais. Entre eles temos Darhyl Camper Jr., conhecido como DJ Camper, produziu músicas do Chris Brown, JAY-Z, Nicki Minaj e do finado Fifth Harmony; e Thaddis Harrell, chamado também de Kuk Harrell, que trabalhou com Rihanna na era Loud e Beyoncé com o I Am… Sasha Fierce. DJ Camper e Thaddis Harrell também assinam as produções das faixas.

O ato de abertura do álbum é com o conceito Realisations. Nele começamos com o interlude Oh Lord, do qual Jessie J faz um desabafo sobre se perder artisticamente e suplica para que reencontre o seu caminho e vontade de cantar. A sequência entra a já conhecida do público Think About That, lançada em setembro do ano passado. A canção fala sobre um relacionamento que atrasava a vida e carreira de Jessie. A letra é intensa e o videoclipe minimalista. Dopamine é a melhor música do conceito Realisations. Liricamente é uma música forte, que fala sobre superficialidade do mundo caótico em que vivemos, do qual pessoas morrem todos os dias e subimos hashtags no Twitter, curtimos fotos no Instagram e a dor real não se faz presente, porque estamos viciados em dopamina (neurotransmissor do prazer). Em um dos versos, Jessie canta “The media is fucked, feed us lies so we’re full on nothing”, ou seja, “a mídia está fodida, nos alimenta com mentiras então estamos cheios de nada”Easy On Me fecha a primeira parte do disco e reflete um pouco do que ouvimos nas três primeiras músicas: simplicidade. Jessie canta de forma simples, sem exageros vocais e com muito soul. O minimalismo da canção é delicioso.

Em Obsessions, encontramos duas faixas já lançadas por Jessie: Real Deal, primeiro single promocional do disco lançada em agosto do ano passado, e Not My Ex, divulgada em outubro de 2017. Real Deal é animadinha e traz um pouco (mas não muito) de ritmo ao disco. Not My Ex é maravilhosa e joga as verdades no ventilador. Jessie fala sobre ter se libertado do ex-parceiro (vulgo embuste) e que tudo será diferente com o atual. Petty, faixa seis, é a minha favorita de Obsessions. Jessie canta sobre uma “amizade” tóxica, que fala mal de você pelas costas e faz de tudo pra ser melhor que você custe o que custar. Além do refrão chicletinho, a música tem uma pegada urban muito boa e é, de certa forma, radiofônica. Four Letter Word traz mais minimalismo ao álbum e fala da obsessão [de Jessie?] em ser mãe. Essa palavra com quatro letras dentro da música pode significar baby (muito dito na canção) e/ou love. Apesar de encerrar o conceito de Obsessions com uma canção tranquila, as quatro músicas trazem o oposto de Realisations: o exagero. Jessie solta o vozeirão, coloca batidas de R&B menos suaves e mantém as boas composições até aqui.

O ato Sex é o mais animadinho do disco e começa com Queen, faixa considerada o primeiro single oficial do álbum. A canção é um hino da autoaceitação do próprio corpo, das imperfeições perfeitas. Jessie canta sobre ligar o foda-se pra sociedade e se amar mais, se sentir poderosa, uma rainha. O videoclipe passa exatamente essa mensagem ao colocar mulheres com diferentes corpos, rostos e cor de pele. One Night Lover vem logo em seguida com um ritmo gostosinho e uma letra na qual Jessie fala sobre um ex que se aproveita dos momentos de carência para voltar à sua vida. Ela canta “You kiss my neck, then we fuck. Then you leave again. Who we fooling?” (Você beija meu pescoço, então transamos. E você sai de novo. Quem estamos enganando?). Em Dangerous, Jessie faz jus ao conceito Sex em uma canção ousada e que lembra trabalhos de artistas como Janet Jackson. A última música de Sex é a ótima Play, que parece uma produção do Mark Ronson, famoso por canções como Uptown Funk com o Bruno Mars e Rehab da Amy Winehouse. É a música com maior potencial de conquistar boas posições nos charts, caso Jessie resolva torná-la single, é claro. 

Encerrando o álbum, Jessie apresenta o último conceito: EmpowermentGlory é a faixa que retrata melhor a temática. A música traz uma sonoridade oitentista, que me fez lembrar do memorável disco Back To Basics da Christina Aguilera. É a melhor canção do conceito. Rose Challenge é um interlude todo instrumental que antecede Someone’s Lady, uma faixa todo no piano e focada no que Jessie sabe fazer de melhor: soltar o vozeirão. Vocalmente, Someone’s Lady é a melhor música do álbum. Jessie brinca com sua voz por toda a faixa, que fala sobre o desejo de ter um companheiro (a). Fechando o álbum, I Believe in Love mostra a Jessie forte, que apesar de todas as quedas e decepções, voltou a acreditar em si e no amor. É uma canção suave que lembra as baladinhas do álbum Who You Are (2011).

Em entrevista à Official Charts no ano passado, Jessie contou que queria escrever de forma diferente nesse disco. Sobre a necessidade de ter um hit, ela disse: “Who You Are foi antes da fama e este material [R.O.S.E.] é muito depois do sucesso e coisas que não foram tão boas estavam nos olhos do público. Tendo essa experiência e saindo dela, se eu continuasse seguindo esse caminho de apenas lançar músicas que não escrevi, em um gênero que não é muito querido para o meu coração, estaria em águas perigosas. Preciso nutrir e alimentar o meu lado e é por isso que eu fiz isso em primeiro lugar”. Ela ainda acrescentou:

Não estou dizendo que eu nunca vou fazer outra Bang Bang, mas para eu fazer outro Bang Bang, eu preciso fazer um Think About That também. Em vez de eu estar 90% fora e 10% do avesso, agora é o oposto para mim.

Essa entrevista diz muito sobre o que é e o que representa o R.O.S.E. para Jessie J. É um álbum intimista, feito em um momento de reflexão da cantora sobre sua vida, sua carreira e suas relações. Produzir hits e ter suas músicas em #1 nas paradas é algo que todo artista almeja, mas hits nem sempre criam um legado e conseguem passar as mensagens que o artista, principalmente aquele que compõe – como é o caso de Jessie, deseja passar a seu público. Nesse sentido, R.O.S.E. é o disco mais artístico de Jessie J. Tem músicas boas e, fundamentalmente, composições de uma qualidade absurda. Ela volta a flertar com o R&B, estilo presente no álbum Alive (2013), só que dessa vez traz mais blues do que rhythm e deixa o pop de lado. R.O.S.E. não é tão completo quanto o Who You Are – que pra mim continua sendo o melhor disco dela – nem tem os hits que o Sweet Talker (2014) conseguiu entregar. No entanto, é o disco que Jessie precisava neste momento, que prova de uma vez por todas o quão talentosa ela é e merece o devido reconhecimento por isso.

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