Christina Aguilera se reinventa com ‘Liberation’

Demorou, mas Christina Aguilera finalmente “liberou” seu novo álbum. Sem lançar um trabalho sólido desde Lotus (2012), Christina passou o últimos anos lançando singles esporádicos como We Remain (trilha sonora do filme Jogos Vorazes: Em Chamas de 2013), Change (em homenagem às vítimas do ataque à boate LGBT Pulse, em Orlando, em 2016) e Telepathy com o Nile Rodgers (trilha sonora da série da Netflix, The Get Down). Xtina ainda participou de músicas de outros artistas, como o hit Say Something do A Great Big World, que rendeu o primeiro Grammy Awards da dupla e o quinto de Aguilera. Ela ainda foi jurada do The Voice, teve sua segunda filha, Summer Rain, e vinha produzindo seu sexto álbum desde então. Após tanta espera, os fãs viram a luz no fim do túnel no início de maio deste ano, quando Christina lançou a música e o videoclipe de Accelerate, em parceria com os rappers Ty Dolla $ign e 2 Chainz. Na ocasião, foi revelado título, capa e data de lançamento de Liberation, além do anúncio da primeira turnê da cantora em 10 anos, a The Liberation Tour que estreia em setembro.

Liberation chega com uma Christina Aguilera revigorada e “liberta” artisticamente. O disco conta com 15 faixas e traz um time de respeito, como o rapper Kanye West que produziu as faixas Accelerate e Maria, a cantora e compositora Julia Michaels e o cantor MNEK que trabalharam em Deserve, o rapper Anderson Paak responsável por Sick of Sittin’ Like I Do, e outros produtores de hip-hop, que deixam a sonoridade do álbum menos pop e mais carregada de batidas urban. Liberation é a faixa que abre os trabalhos. Toda instrumental, a faixa é um interlude produzido pelo pianista e compositor de filmes, Nicholas Britell, que trabalhou em produções como Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014) e Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016).

A sequência é feita pelo interlude Searching For Maria e a canção Maria. O interlude, segundo a própria Christina Aguilera é uma “homenagem” a um lado do qual a cantora perdeu contato por vários anos. Também é uma referência a de um filmes favoritos de Xtina, A Noviça Rebelde (1965), no qual a personagem Maria (interpretada pela atriz Julie Andrews) tem um espírito livre irreprimível, e luta para encontrar a si mesma e a sua liberdade. Em Maria, Xtina utiliza sample de Maria (You Were The Only One) do Michael Jackson, presente no primeiro álbum do Rei do Pop, o Got to Be There (1972). Christina canta sobre se perder nessa jornada que é a vida, sobre todas as dores e situações que nos desanimam. É sobre tudo isso e como podemos encontrar a nós mesmos. É uma canção poderosa e uma das melhores, se não a melhor faixa do álbum. Merece MUITO ser o próximo single de trabalho do disco.

Além de flertar com o urban em Liberation, Christina mostra sua versatilidade e nos entrega canções mais voltadas pro rock e reggae, como é o caso de Sick of Sittin’ e Right Moves. Em Sick of Sittin’, Christina se joga nos rifes de guitarra e canta sobre “estar cansada de sentar” (shade pro The Voice?!?) e de que não precisa mais disso. A influência do rock é evidente na faixa. Xtina conta que se inspirou no espírito de Janis Joplin para criar a faixa com Anderson Paak. Segundo ela, a música tem o intuito de “dizer não à máquina de fazer dinheiro, previsível e clichê. É criar algo que pareça autêntico, genuíno e real, voltando à integridade e ao propósito de sua alma”. É sobre libertar-se das correntes que te prendiam e te deixavam estagnado. Já Right Moves traz uma Christina toda trabalhada no reggae. A cantora convocou as cantoras jamaicanas Keida e Shenseea, pouco conhecidas no Brasil. Keida é conhecida por músicas como “Stand For Something” e seu maior sucesso “Ganja Tea”. Já Shenseea canta com o também jamaicano Sean Paul, no single “Rolling”, lançado no ano passado. Ouvir Xtina cantando dancehall reggae é uma das maiores e boas surpresas desse disco. A cantora explora sua sensualidade na faixa, que é uma das mais divertidas e despretensiosas de Liberation.

Dreamers é um interlude que antecede a melhor parceria do disco, Fall In Line. Nele, Christina e um grupo diversificado de crianças compartilham mantras de empoderamento e dizem o que querem ser quando crescerem, incluindo a filha de Xtina, Summer Rain. “Dá um tom de retorno à inocência juvenil e à sensação de possibilidade ilimitada que a libertação significa”, revela Christina Aguilera. A mudança do interlude para Fall In Line é um dos pontos altos e mais significativos do disco. A parceria entre Christina com Demi Lovato, uma artista dessa geração e declaradamente fã de Xtina, é daquelas de arrepiar. A união de duas vozes tão poderosas não poderia ser tão emblemática quanto é Fall In Line. A letra, assim como o videoclipe, retrata muito bem a situação que Christina, Demi e outras ex-estrelas Disney passaram em suas respectivas épocas. Cada movimento de dança, cada música, cada letra, cada aparição em público e tudo o que era controlado sob medida foi quebrado, elas não precisam mais seguir regras e suas vozes podem ser ouvidas verdadeiramente. Fall In Line é para aqueles que se sentiram calados ou reprimidos, mas que buscaram a sua verdade. É um hino não só feminista, mas de liberdade também e reflete muito do que Christina quis passar com o Liberation.

O flerte de Christina com o hip-hop segue firme forte com o decorrer do disco. Like I Do, que conta com o rapper pouco conhecido GoldLink (de Washington D.C, GoldLink começou a carreira em 2013, tem duas mixtapes e um álbum, lançado apenas em 2017), é uma dessas faixas voltadas pro urban. Produzida por Anderson Paak, a canção soa estranho de início, mas te envolve aos poucos. A sensualidade na voz de Xtina dá um toque especial à faixa, o mesmo que acontece em Deserve. Escrita por MNEK, que faz backing-vocal, e Julia Michaels, Deserve é uma súplica para ficar com o seu grande amor. Christina canta a plenos pulmões para que o @ a note e diga que ela é a “única pessoa que o merece”. Apesar da sonoridade e ótima letra, é a música que menos gosto do disco. Em Pipe, Aguilera traz um R&B delicioso, que seria facilmente cantado por grandes nomes do gênero como Alicia Keys. A cantora ainda nos apresenta o rapper desconhecido XNDA, dando um espaço importante à novos talentos. Sobre Pipe, Xtina revela: “Me diverti muito explorando estilisticamente diferentes texturas e tons em minha voz. Tocando em um certo tipo de fluxo e flerte. Esta música é tanto de palavras como preliminares”. E é isso. A música é sexy e explora diferentes tonalidades vocais da cantora. Uma das minhas favoritas do álbum.

Masochist serve de contraponto à Pipe apesar do nome sugestivo. A canção é quase uma sofrência sertaneja. A letra basicamente faz alusão ao masoquismo por a pessoa permanecer em um relacionamento que só causa dor e sofrimento. Christina canta “I must be some kind of masochist to hurt myself in this way. ‘Cause lovin’ you is so bad for me. Oh, but I just can’t walk away (Devo ser algum tipo de masoquista por me machucar dessa maneira. Porque amar você é tão ruim pra mim, mas eu simplesmente não posso ir embora)“. É uma das minhas favoritas, principalmente por Christina “berrar” como costuma fazer. I Don’t Need Anymore é outro interlude. Nesse, Xtina solta o vozeirão e é gostoso demais. A faixa precede Accelerate, outra canção que traz muito hip-hop. Com participação de Ty Dolla $ign e 2 Chainz, e produção de Kanye West, Accelerate é a faixa que mais tem apelo “comercial” do álbum (acredite, se quiser). Quando foi lançada, à princípio não gostei da música, no entanto, após ouvir algumas vezes me peguei cantando “Baby, it’s alright. Baby, it’s OK. Spark round later. Don’t worry ‘bout tomorrow… Accelerate, c’mon babe, pick up your speed. Stamina, fill me up, that’s what I need“. É uma faixa que fica gostosa e viciante gradativamente após cada audição.

Twice, um dos singles promocionais do álbum, assim como Fall In Line e Maria, é uma das canções que refletem muito o significado do álbum. Xtina questiona o sentido da vida. Reflete sobre todos os seus erros e acertos na carreira e vida pessoal, mas afirma na letra que faria tudo novamente sem pensar “duas vezes”. A canção é um reflexo direto do que é o Liberation, um álbum sobre recomeços. Que surgiu a partir dos erros e acertos do passado, mas que busca “liberar” tudo isso pra fora, mostrando o lado mais íntimo da artista. Unless It’s with You finaliza o disco de forma leve e romântica. Christina canta que “não quer se casar, a menos que seja com você”. Provável que a canção seja uma declaração de amor ao marido Matt Rutler. De toda forma, a faixa traz tudo aquilo que os fãs da cantora esperam dela: muita “gritaria”. Xtina dá um show de notas, que lembram um pouco hinos da cantora como The Voice Within, vocalmente falando.

Liberation é um dos álbuns mais “crus” de Christina Aguilera. Ela ignorou totalmente os fracassos de seus dois últimos discos Bionic (2010) e Lotus (2012), que abusavam do pop eletrônico, e retorna com um álbum nada comercial e que vem para reforçar apenas o quão talentosa, versátil e artista “não vendida” que é. Seria cômodo para Xtina lançar mais um disco pop, cheio de “farofas” e produtores do momento com intenção de figurar no topo dos charts. Mas não, ela apenas fez o que queria fazer. Um álbum honesto e que compartilha as suas verdades, medos e inseguranças com seu público. Logicamente, alcançar bons resultados e ser aclamado pela crítica é algo que todo cantor deseja, mas com pouco mais de 15 anos de carreira, Christina mostra que quer apenas fazer arte e mostrar um lado nunca visto em sua trajetória.

Christina Aguilera se reinventa em Liberation por trazer uma sonoridade diferente de tudo que já fez durante sua carreira, por se arriscar e se desafiar como artista, que não se contenta em entregar mais do mesmo. Não é o melhor disco da cantora, mas é um dos melhores ao lado de Stripped (2002), que continua como um marco da música pop e Back to Basics (2006), que é um dos álbuns mais inovadores da década passada. Com Liberation, Christina apaga um pouco da generalidade que foi o Lotus e a fase excêntrica, mas pouco valorizada (até pela própria artista) de Bionic. Mais intimista, sem todos os excessos que a acompanharam durante esses anos, mas com a essência de sempre, Christina está liberta!

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