‘O Mundo Sombrio de Sabrina’: Bem-vindos ao Coven!

Sabrina Spellman (Kiernan Shipka) está prestes a completar dezesseis anos, possui bons amigos e um namorado amoroso, estuda no colégio de Greendale e luta contra suas injustiças. Nada fora do comum, a não ser o fato de que Sabrina também é bruxa e que ao completar dezesseis anos passará pelo batismo das trevas e terá que abrir mão de toda sua vida humana e das pessoas que fazem parte dela.

Sabrina é fruto da união de um bruxo com uma mortal, com a morte dos seus pais ela foi criada por suas tias, Zelda (Miranda Otto) e Hilda (Lucy Davis), duas bruxas que cuidaram da sua educação e a prepararam para trilhar o caminho das trevas. O problema é que Sabrina tem dúvidas e não quer abrir mão de sua vida humana, por isso ela está disposta a aprender mais sobre o batismo e os preceitos da igreja da noite e quais são as consequências que essa escolha trará para o resto da sua vida, que pode ser bem longa caso ela aceite assinar seu nome no livro da besta.

Esta não é a primeira vez que a bruxa adolescente vai para na televisão, na década de 90 fez sucesso a série de comédia Sabrina, a aprendiz de feiticeira, que contava com o humor ácido de Salem, um bruxo condenado a viver como gato que era um conselheiro de Sabrina. Criada nos quadrinhos da Archie Comics, na década de 60, a personagem apareceu pela primeira vez na história do Archie e sua turma, também conhecidos da série Riverdale, e foi ganhando cada vez mais espaço.

Então dessa vez encontramos algo decididamente mais tenebroso, mesmo que a personagem continue sendo uma adolescente. Os núcleos entre humanos e bruxas estão bem separados porém a protagonista transita bem entre eles e consegue passar espontaneidade com a vida dupla que leva. De um lado temos a Funerária Spellman que abriga as tias Hilda e Zelda, e o primo Ambrose (Chance Perdomo) que apesar de serem muito diferentes um do outro funcionam muito bem apresentando para Sabrina todas as possibilidades do mundo bruxo. Hilda possui uma personalidade mais doce e gentil e tenta ajudar Sabrina com suas dúvidas com sinceridade e coração aberto. Zelda é muito devota da igreja da noite e se preocupa com o que os outros pensam dela e da sua família, é a mais comprometida em fazer o batismo acontecer. Ambrose está cumprindo prisão domiciliar e tenta ajudar sua prima a fazer suas próprias descobertas enquanto torce para ter sua pena reduzida, muitos compararam o jeito sarcástico de Ambrose com o de Salem da série Aprendiz Feiticeira, porém Ambrose é um personagem mais complexo que parecer ter muito o que entregar ainda pela frente. Salem também aparece por aqui, mas como um familiar, uma espécie de espírito de proteção em forma animal para as bruxas, e não fala a não ser no primeiro encontro.

No colégio de Greendale encontramos Susie (Lachlan Watson), Rosalind (Jaz Sinclair) e Harvey (Ross Lynch), que formam o grupo de amigas e namorado da Sabrina, pessoas que ela tenta proteger a todo custo e que serão desenvolvidas ao longo do tempo. Ainda temos a  Profª Mary Wardwell (Michelle Gomez)  e o Diretor George Hawthorne (Bronson Pinchot), que serão cruciais na jornada do grupo. Esse núcleo influenciará bastante nas decisões da protagonista seja para o lado bom ou ruim. A igreja da noite também traz suas excêntricas personagens, do padre Blackwood (Richard Coyle) as irmãs estranhas, Prudence (Tati Gabrielle), Agatha (Adeline Rudolph) e Dorcas (Abigail Cowen) e quanto mais conhecemos o Coven, mais macabro e grotesco ele parece, de uma forma que se encaixa perfeitamente a cidade e na sua história.

Sabrina é corajosa e impetuosa para lutar pelo o que acredita e para defender os seus, seja do bullying que Susie sofre na escola por não se encaixar nos padrões femininos esperados ou na sua luta contra satã para proteger sua liberdade e esse é o fio condutor mais interessante de toda série. Fortemente ancorada na religiosidade os preceitos no caminho da luz ou das trevas são muito parecidos para determinadas questões, como ter uma figura masculina no centro de poder e os representantes dessa figura também serem masculinas, na figura de padres e sumo sacerdotes. Em vários momentos em que a protagonista expressa o seu desejo de ter os seus poderes e a sua liberdade para outras bruxas ela é levemente repreendida, como na parte em que Prudence afirma para ela “Você não acha que ele vai te dar todos esses poderes e ainda te deixar livre não é? Afinal somos mulheres e ele ainda é um homem”.

Outro ponto importante é a fé irrestrita da igreja da noite, personificada tanto na tia Zelda como em Prudence, durante o episódio 7: O Ritual dos Rituais o Coven se prepara para um sacrifício e enquanto todos enxergam como uma dádiva, Sabrina vê pelo o que realmente é, cruel e desnecessário. Por isso ela tenta questionar os outros fiéis e entender como ninguém mais percebe o absurdo da situação, apelando para Prudence também, já que ela é uma das mais devotas da igreja da noite.

Religião, sororidade, gêneros não binários, família abusiva, diversidade e bullying, todas essas questões são abordadas na série e levantam questionamentos que ultrapassam a barreira do terror/fantasia. A maioria dos personagens tem um motivo para existir na série e se acompanharmos com atenção os detalhes e dilemas individuais vividos por eles encontramos uma complexa teia de famílias interligadas e magia que se espalha além das bruxas. Que venha a segunda temporada, ainda mais sombria e ainda mais questionadora.

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