‘A Maldição da Residência Hill’: Não há nada tão assustador quanto nós mesmos

A Residência Hill, desprovida de sanidade, erguia-se sozinha, abrigando em si a escuridão. Foi assim durante cem anos, antes de a minha família se mudar e talvez seja por mais cem.

Considerada por muita gente como uma das melhores séries de 2018, A Maldição da Residência Hill traz em sua essência uma história poderosa sobre laços familiares, embrulhada em terror, suspense e mistério. Os Crain se mudam para uma casa antiga com o objetivo de reforma-lá em dois meses e conseguir um bom valor com a sua venda. Eles passam de casa em casa reformando e vendendo, até que eles possam construir a casa do sempre da família Crain. Iniciamos essa jornada com a fatídica noite em que Hugh Crain (Henry Thomas /Timothy Hutton) corre com seus cinco filhos para longe da Casa Hill. Steve (Paxton Singleton /Michiel Huisman), Shirley (Lulu Wilson /Elizabeth Reaser), Theodora (Mckenna Grace /Katie Siegel), Luke (Julian Hilliard /Oliver Jackson-Cohen) e Nell (Violet McGraw /Victoria Pedretti), não sabem o que está acontecendo ou o porquê do seu pai estar levando-os para longe e deixando a mãe deles para trás, Olivia Crain (Carla Gugino).

Avançamos no tempo e conhecemos os Crain adultos agora, com suas famílias, seu problemas e traumas. Steve é um autor de livros sobre fantasmas e escreveu sobre a estadia de sua família na Residência Hill, o que causa um sério desentendimento entre ele e Shirley. Ela está casada e é proprietária com o marido de uma funerária. Theo é uma psicologa infantil. Luke um viciado em recuperação e Nell a problemática que ninguém quer mais ouvir. O que eles são, o que fazem da vida e como reagem uns aos outros está diretamente ligado ao que aconteceu na Casa Hill e é por isso que vamos acompanhando o antes e o agora, os flashbacks do passado vão construindo os personagens e acima de tudo a Casa, que ela é e o que significa para essa família.

Steve apesar de ganhar a vida com fantasmas e com a história da sua família é extremamente cético, e vai falar uma das frases mais emblemáticas da série, que fantasmas e assombrações nada mais são do que ressentimento, luto, raiva, segredos e culpa. Não poderia estar mais certo e mais errado sobre os fantasmas que assombram a sua família. Uma discussão que permeia a relação entre pai e filho é uma suposta doença mental de Olivia e como ela não foi ajudada por seu marido e por isso seu destino foi selado. Em um primeiro momento é fácil descartar a hipótese de Steve e pensar que ele não sabe de nada, mas depois a dúvida vai se instalando, até que ponto a Casa influenciou a Olivia e até que ponto ela se deixou influenciar por causa da sua condição? É interessante ir percebendo que aqueles que tinham mais sensibilidade, como os gêmeos, Nell e Luke, foram mais prejudicados e apresentaram problemas mais graves na convivência cotidiana do que os outros irmãos.

Demora para entendermos o que é a Casa e como ela afeta seus moradores, apesar dos avisos constantes dos empregados, o casal Dudley (Annabeth Gish / Robert Longstreet), sobre como o ambiente perturba todos que moram ali, os avisos são sempre meio que deixados para lá, afinal é provisório a estadia na casa. E tanto no passado como no presente vai ficando cada vez mais insuportável manter as aparências e fazer de conta que não tem nada de errado. Esse é um dos grandes trunfos da série, a capacidade de levar as duas narrativas em um fluxo convergente e interessante, com destaque para dois episódios, o episódio 7: Duas Tempestades e o episódio 9: Pesadelo. Em alguns episódios o ritmo acaba perdido e alguns pontos se arrastam indevidamente, contudo o saldo final da série é bem positivo.

A força da série está nas relações familiares, apesar dos sustos, sim tem alguns, o foco está em como lidamos uns com os outros, em qual ponto é ok lavar as mãos em relação ao destino do outro, existe um momento em que é ok? Como suportamos as consequências futuras dos nossos atos? Tudo isso com doses intensas de terror e de suspense, que nos prende e mostra que as certezas de nada valem quando somos confrontados com nossos piores pesadelos.

É realmente difícil falar dessa série sem dar muitos spoilers, mas ela começa despretensiosa, usando alguns clichês do gênero e vai crescendo muito de um episódio para outro e logo estamos completamente investidos na história da família Crain. Recentemente a Netflix confirmou a segunda temporada para 2020 e assim como o diretor de produção da série, Mike Flanagan, havia afirmado, ela não será sobre a família Crain, eles fecharam seu ciclo. A série se tornará uma antologia e terá o título de A Maldição de Bly Manor que faz referência a casa do livro A Outra volta do Parafuso de Henry James. Essa primeira temporada foi inspirada no livro A Assombração da Casa da Colina da Shirley Jackson.

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