‘Coisa Mais Linda’ discute temas atuais com ótima produção visual

Coisa Mais Linda é a nova série brasileira original da Netflix. Criada por Giuliano Cedroni e Heather Roth, a série se passa no Rio de Janeiro no final da década de 50 e acompanha a paulista Maria Luiza, a Malu (Maria Casadevall), que ao ir à cidade maravilhosa abrir seu restaurante descobre que foi roubada, abandonada e traída pelo marido, Pedro. Ao conhecer Chico (Leandro Lima), um cantor de bossa nova, ela resolve abdicar de sua boa vida em São Paulo para abrir um clube de bossa nova na capital fluminense, indo contra os desejos de seu pai ultraconservador. No Rio de Janeiro, Malu se reencontra com Lígia (Fernanda Vasconcellos), amiga de longa data; conhece a jornalista e cunhada de Lígia, Thereza (Mel Lisboa); e encontra apoio em Adélia (Pathy Dejesus) para abrir o clube.

Apesar de ter Malu como principal protagonista, a série desenvolve em conjunto as histórias de Lígia, Thereza e Adélia, sempre apontando para diversos temas, sobretudo, à misoginia que mulheres enfrentavam na sociedade brasileira no final dos anos 50. Malu precisa lidar com a “vergonha” de ter sido largada pelo marido e por buscar viver de um clube de bossa nova, algo visto por seu pai e outros homens como indigno e desonrado. Lígia, casada com o político Augusto Soares (Gustavo Vaz), precisa fazer a linha mulher de família e até desistir do sonho de ser cantora para manter o status ao lado do marido. Thereza, esposa de Nelson (Alexandre Cioletti) – irmão de Augusto, é uma mulher altamente feminista e talentosa, que trabalha na revista Ângela voltada à mulheres, mas que é escrita majoritariamente por homens. Ela precisa lidar com assédio e misoginia no ambiente de trabalho. Adélia é empregada doméstica, negra, analfabeta e mora no morro, onde cria sua filha Conceição. Além das condições análogas de trabalho, Adélia sofre, sobretudo, com o racismo e o preconceito por morar na favela.

Cada uma dessas mulheres encontram forças umas nas outras para lidar com todos esses problemas e preconceitos que sofrem. Maria Casadevall entrega uma personagem que vai evoluindo a cada episódio e nos envolve por sua determinação e coragem para fazer o que acredita. Fernanda Vasconcellos faz uma Lígia cheia de nuances que vão do amor ao ódio. A Thereza de Mel Lisboa é uma das personagens que mais gostei, principalmente por entender e não aceitar misoginia, abusos (morais ou de poder) e ser uma mulher determinada em mudar toda aquela situação dentro e fora do ambiente de trabalho. Porém, a personagem que mais me cativou foi a de Pathy Dejesus. A atriz entrega uma de suas melhores atuações, passando uma verdade e sensibilidade ímpares, além de conseguir levantar diversas discussões acerca do racismo com mulheres negras em um país miscigenado como o Brasil. O elenco masculino também vai muito bem. Destaques para Ícaro Silva (Capitão), Gustavo Vaz e Leandro Lima, que faz um artista com problemas com o álcool.

Coisa Mais Linda obviamente é toda embalada por bossa nova, além do samba. Traz uma fotografia impecável e bons figurinos. Em meio a tantas discussões, o roteiro ainda consegue pautar temas como aborto, violência doméstica e religião. Composta por sete episódios com aproximadamente 50 minutos, a série tem um bom ritmo e roteiro conciso. A série peca apenas nos dois últimos episódios, quando começa a apressar a resolução de várias subtramas e deixa alguns pontos soltos, além de um gancho para uma possível segunda temporada.

Fora isso, Coisa Mais Linda é uma série inteligente, que coloca temas importantes como a emancipação da mulher, a misoginia, o feminismo e o racismo em pauta de forma direta, sem papas na língua, além de ser um deleite musical. O apoio mútuo entre mulheres é incentivado e encorajado. Apesar de se passar em 1959, os temas da série são extremamente atuais, o que aumenta a ligação dos personagens com o telespectador. Com um ótimo elenco, a produção nacional da Netflix acerta na representatividade e entrega um produto de qualidade que sabe muito bem aonde quer chegar e o público que deseja atingir.

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