Madonna volta a se reinventar no intrigante e político ‘Madame X’

Madame X é uma agente secreta, viajando pelo mundo, mudando de identidades, lutando por liberdade, trazendo luz para lugares sombrios. Ela é uma instrutora de cha cha, uma professora, uma chefe de estado, uma dona de casa, uma equestre, uma prisioneira, uma estudante, uma professora, uma freira, uma cantora de cabaré, uma santa, uma prostituta“. É com esse manifesto que a Rainha do Pop, Madonna, apresenta o seu alter ego Madame X, que dá nome ao seu 14º álbum da carreira. São 15 faixas na versão deluxe do álbum e Madonna canta em três idiomas: inglês, espanhol e português. A cantora mora em Portugal desde 2017, então a cultura portuguesa é uma forte influência em Madame X.

O disco marca o retorno do produtor francês Mirwais em trabalhos da diva. Mirwais produziu os álbuns Music (2000) e American Life (2003), e volta a trabalhar com Madonna em oito faixas de Madame X. Além dele, Madonna trabalha com outros cinco produtores: Mike Dean (que produziu músicas do Rebel Heart [2015] e esteve a frente de projetos como o Lemonade da Beyoncé e o Liberation da Christina Aguilera), o canadense Billboard (que trabalhou com Britney Spears na era Femme Fatale e com a própria Madonna em Rebel Heart), Jason Evigan (conhecido por trabalhos com o Maroon 5 e David Guetta), Jeff Bhasker (trabalhos sólidos com o Kanye West) e o já conhecido Diplo (que é um dos principais produtores do Rebel Heart).

Medellín, música em parceria com o colombiano Maluma e primeiro single do álbum, abre os trabalhos de Madame X. A canção que fala de amor traz Madonna flertando novamente com a música latina, dessa vez em um reggaeton nada convencional e cantando em inglês e espanhol. O videoclipe, impecável diga-se de passagem, introduz o alter ego Madame X e mostra a cantora como uma das personalidades, a instrutora de cha cha. Na introdução do vídeo, ela afirma:

Querido Deus, como eu ainda posso confiar em alguém após anos de desapontamento e traição? Como eu não poderia fugir? De novo, de novo, escapar… Eu nunca serei o que a sociedade espera que eu seja. Eu já vi muita coisa. Eu não posso voltar atrás. Já fui sequestrada, torturada, humilhada e abusada. E no final, sempre tenho esperança. Eu ainda acredito na bondade dos humanos. Agradeço Deus pela natureza, pelos anjos que me rodeiam, pelo espírito da minha mãe que está sempre me protegendo. De agora em diante eu sou Madame X, e Madame X ama dançar, pois você não consegue atingir um alvo que se move.

O single é uma das duas canções das quais Madonna canta ao lado do colombiano. A outra música é Bitch I’m Loca, uma faixa sexy e que fala sobre se divertir. Em relação a Medellín, esta é mais comercial e alinhada com mercado latino. Outra canção que mostra o flerte da cantora com a música latina é Faz Gostoso, faixa com a brasileira Anitta. A música é regravação de um funk da cantora luso brasileira Blaya lançada no ano passado (assista ao videoclipe aqui). Faz Gostoso estourou em Portugal, país que Madonna vive desde 2017. Para regravar a faixa, a Rainha do Pop convocou a brasileira Anitta, como uma espécie de homenagem ao Brasil – país onde há grande parte de fãs da diva. A grande diferença da versão de Madonna para a versão original de Blaya, é que na de Madame X há versos inglês. Anitta caiu como uma luva na versão. A cantora tem uma pequena participação na faixa e canta todos os refrões ao lado de Madonna. A junção das vozes casou perfeitamente. Vivemos para ouvir Madonna cantando um funk em português.

Mas nem só de amor vive Madame X. O álbum é altamente político e traz a cantora sincerona colocando o dedo em muitas feridas. Uma dessas músicas políticas é Dark Ballet. Madonna canta sobre as mazelas desse mundo. O videoclipe, dirigido por Emmanuel Adjei, abre com um citação da heroína francesa Joana D’arc: “Tudo o que temos é a nossa vida, e a vivemos como acreditamos que devamos vivê-la. Mas renunciar ao que se é e viver sem acreditar em nada é mais terrível do que morrer“. O rapper e ativista Mykki Blanco, que é negro, transsexual e soropositivo representa Joana D’arc. Ele é queimado vivo assim como a francesa, que foi considerada herege por receber “visões demoníacas” e se vestir como homem. A representação é clara: na sociedade atual, colocamos na fogueira pessoas negras, LGBTQ+, mulheres e todos os tipos de pessoas que não se adequam aos padrões impostos pela sociedade. As metáforas com o racismo institucionalizado, a misoginia, transfobia e homofobia são claras. O vídeo termina com a seguinte frase de Mykki Blanco: “Caminhei nessa terra, negro, queer e HIV positivo, mas nenhuma transgressão contra mim foi mais poderosa do que a esperança dentro de mim”. A música possui arranjo de Dance of the Reed-Flutes do compositor russo Piotr Ilitch Tchaikovsky e foi cantada pela primeira vez no Met Gala do ano passado sob o nome de Beautiful Game.

God Control continua o tom político. A música faz duras críticas às políticas de porte de armas, questão super debatida nos Estados Unidos, governado pelo presidente Donald Trump, e até mesmo aqui no Brasil. Com um coral, Madonna canta: “Eu acho que entendi por que as pessoas pegam uma arma, eu acho que entendo por que todos desistimos. Todos os dias eles têm uma espécie de vitória. Sangue inocente, espalhado em todos os lugares. Eles dizem que precisamos de amor, mas precisamos de mais do que isso“. A partir de 1:39, a canção tem uma virada se transforma em um hino dance. Uma das melhores do álbum, com certeza. I Riseum dos singles promocionais, também toca na ferida da política de armas abrindo com um discurso da jovem Emma González, sobrevivente do massacre na Marjory Stoneman Douglas High School nos EUA ano passado, que deixou 17 pessoas mortas. Killers Who Are Partying traz influências do fado português e Madonna canta sobre as minorias. Ela fala que será gay se os gays forem queimados, que será mulher se elas forem estupradas e etc. O refrão é cantado em português: “O mundo é selvagem. O caminho é solitário“.

As mensagens continuam em outras faixas como Batuka, na qual a cantora pede para nos colocarmos no lugar dos outros e julgarmos menos. A música tem um coral de crianças, conta com uma produção com influências africanas e é carregada de autotune. Extreme Occident fala sobre buscar sua própria identidade, conhecer a si mesmo. Ela também canta em português: “Aquilo que mais magoa é que eu não estava perdida“. A faixa ainda tem uma produção que lembra ritmos árabes. Single promocional, Future que tem participação do rapper Quavo e é produzida pelo Diplo, diz em tom político que “nem todo mundo virá pro futuro e nem todo mundo está aprendendo com o passado“. A música é um reggae gostoso do qual a cantora abusa do autotune, assim como em I Don’t Search I Find, canção que deixará os fãs de Erotica (1992) felizes da vida.

Em Come Alive, faixa que fala sobre viver intensamente, Madonna está com a voz mais limpa e sem tantos efeitos. A música é um ótimo complemento de álbum, embora não seja uma das melhores do trabalho. Looking for Mercy é uma das canções mais legais, intensas e cheias de sentimento do álbum. A procura de Madonna por misericórdia deu certo. Um dos grandes acertos de Madame X é com certeza Crazy. Com mais referências portuguesas, a música é uma baladinha que fala de uma paixão avassaladora que precisa ser superada. Madonna volta a misturar inglês com português. “Você me põe tão louca, você pensa que eu sou louca” e “Eu te amo, mas não deixo você me destruir” são algumas frases que a diva entoa. Ainda na vibe romântica, temos o single Crave, parceria com o rapper Swae Lee. A música traz um trap bem produzido e um dos refrões mais comerciais do álbum.

Madame X é o álbum mais político de Madonna desde American Life (2003) e o melhor dela desde Confessions on a Dance Floor (2005). Com o novo trabalho, a cantora rompe a sequência de álbuns que seguiam a tendência do mercado fonográfico – Hard Candy (2008), MDNA (2012) e Rebel Heart (2015) – e volta a fazer o que sempre foi especialista: se reinventar e criar tendências. Madame X traz artistas em ascensão como Anitta, Maluma, Swae Lee e Quavo, mas como forma de diversificar o material e torná-lo um álbum global, e não necessariamente na intenção de fabricar hits como foi feito nos últimos três discos da diva.

Madame X não é um disco comercial ou radiofônico como os anteriores. O álbum soa estranho, mas moderno; diferente, mas maduro e à frente de seu tempo. O pop da cantora se transforma em trap, fado, funk, reggae e dance music, sem perder o viés político e questionador. Obviamente é um álbum feminista, que traz referências nas músicas e nas capas da versão standard que faz alusão à pintora mexicana Frida Kahlo e a capa deluxe, que remete às mulheres operárias que participaram da Revolução Russa de 1917, que foi um dos principais estopins para o início da derrubada do czar. Aos 60 anos de idade, Madonna poderia viver apenas de seu legado invejável, mas ela se nega a isso. A cantora resolveu sair de sua zona de conforto para criar um trabalho único e irretocável, que toca em assuntos importantes, que incomoda um sistema e que faz jus a sua obra impecável. Arrisco dizer que Madame X é um dos melhores álbuns da carreira da artista. É um privilégio ver Madonna na ativa criando um trabalho desses.

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