‘Coringa’ é um drama audacioso, perturbador e visualmente impecável

Coringa já está entre nós. O filme solo do vilão mais famoso da DC Comics estreou nas telonas. Dirigido por Todd Phillips (Se Beber, Não Case) e com roteiro original do próprio Phillips e Scott Silver, o longa acompanha o comediante falido Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), que encontra violentos bandidos pelas ruas de Gotham City e, desconsiderado pela sociedade, começa a ficar louco e a se transformar posteriormente no Coringa.

O filme se passa entre as décadas de 70 e 80, e de cara nos remete a clássicos do diretor Martin Scorsese, como Taxi Driver (1976) e O Rei da Comédia (1982), pela estética e ambientação. Arthur é um cara sofrido, magérrimo, cuida da mãe doente e ainda sofre de um transtorno neurológico que faz com que ria incontrolavelmente. Sua meta é fazer as pessoas rirem fazendo shows de comédia. Porém, a crise financeira e violência que assolam Gotham, além da sociedade em geral que exclui pessoas como ele, trazem à tona sua personalidade psicótica.

Joaquin Phoenix consegue transmitir, brilhantemente, toda essa loucura, sentimentos e desejos insanos que passam pela mente de Arthur até a transformação em Coringa. O ator utiliza inúmeros ‘tipos’ de risadas ao longo do filme, o que é algo inédito e incrível de se ver; choca pela estética extremamente magra e fria de seu corpo, altamente utilizado para performar danças estranhas e assustadoras; e dá um show de expressividade com olhares frios, distantes e que incomodam em diversos momentos pela verdade que passa. O elenco de apoio não fica atrás e traz ótimas performances, como o maravilhoso Robert De Niro que interpreta o apresentador Murray Franklin; Zazie Beetz (a Domino de Deadpool 2) que faz o interesse romântico de Arthur; além de Frances Conroy, que faz a mãe de Arthur, e Brett Cullen que incorpora o magnata Thomas Wayne.

Imagem: Collider

Gotham City é um grande destaque no filme. Os grandes prédios antigos, a sujeira e a violência desenfreada são incorporados de uma forma tão única no longa, que a cidade ganha vida própria. É uma das poucas referências diretas ao Batman, que aqui aparece ainda criança interpretado por Dante Pereira-Olson. Unido à essa estética de ‘falência’ e ruínas está a trilha sonora, outro destaque de Coringa. A trilha é perfeita. Bem encaixada em todos os atos do filme, consegue transformar e dar maior carga dramática em diversas cenas, passando as mais variadas sensações ao espectador, como medo, apreensão, angústia e etc.

O roteiro de Todd Phillips e Scott Silver também está impecável, bem amarrado e eficiente na proposta de apresentar uma visão totalmente diferente e inédita da que conhecemos do Coringa. O que, para mim, é o maior trunfo do filme junto e, principalmente, com a atuação de Joaquin Phoenix. É interessante notar que em alguns momentos o roteiro induz a um certo “vitimismo” do personagem, como se somente a sociedade o tivesse transformado nesse agente do caos quando, na verdade, isso já era algo intrínseco em Arthur. A cena final deve dividir opiniões e abrir diversas interpretações pela forma como o diretor concluiu a história.

Muita gente deve lembrar do saudoso Heath Ledger, que interpretou o vilão em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), e perguntar se Joaquin Phoenix fez um trabalho melhor ou não. A resposta para isso é: atuações no mesmo nível. Enquanto Heath deu um ar mais anarquista ao personagem, Joaquin traz uma interpretação bem mais psicológica do Coringa. Nesse sentido, é impossível comparar a atuação dos dois. Mas ambos deram o nome. Joaquin, aliás, merece todas as indicações nos principais prêmios da próxima temporada de premiações do cinema. É um trabalho louvável do ator, digno de Oscar.

Coringa consegue ser original, violento, perturbador e audacioso ao mesmo tempo. Esteticamente é um filme belíssimo, com excelente fotografia, edição de som e montagem. Adentramos na mente de um psicopata e isso é simplesmente insano. O filme termina e você fica por algum tempo digerindo tudo o que acabou de ver. É uma verdadeira obra de arte moderna que, no futuro, deverá ser lembrada como um clássico do cinema.

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