Luna Nera – 1ª temporada

Luna Nera é a nova série italiana da Netflix. Baseada no livro As Cidades Perdidas: Lua Negra da autora Tiziana Triana, a série se passa na Itália do século XVII e acompanha um grupo de bruxas que precisam se unir para não irem para fogueira. Ade (Antonia Fotaras), a protagonista, é uma adolescente que descobre o seu destino em uma família de bruxas. Ela se apaixona por Pietro (Giorgio Belli), um jovem estudioso e que é filho de Sante (Giandomenico Cupaiuolo), líder dos Benandantis (um grupo de caçadores de bruxas). Em meio a caça às bruxas, Ade e Pietro tentarão ficar juntos.

Fugindo dos Benandantis, Ade e o seu irmão caçula Valente (Giada Gagliardi), se refugiam ao lado de Tebe (Manuela Mandracchia), líder das bruxas. Lá, Ade poderá aprender a dominar seus poderes e descobrir mais sobre o seu passado. A aparição dos poderes da bruxa levam um tempo a aparecer, tanto que o grande foco dos primeiros episódios é a caça dos Bernandantis às bruxas e o romance de Ade e Pietro, que surge do nada – a ligação entre eles para ter um romance tão avassalador é mal explicada. Ade é uma personagem insegura, confusa e que não aceita bem a ideia de ser uma bruxa. Ela é relutante em relação ao seu destino. O contraponto disso é Pietro, que não acredita em bruxaria e sim na ciência, como bom estudioso que é. É por isso que Ade vê nele a possibilidade de ter uma vida normal. O romance dos dois é provavelmente a coisa mais irritante da série. É insosso e não convence.

Com a ambientação no século XVII, a série traz muito da Inquisição, na qual mulheres eram queimadas nas fogueiras em praças públicas acusadas de bruxaria ou profanação, mesmo sendo inocentes. A forma como Luna Nera retrata isso é espetacular. Como ponto da ciência, Pietro confronta a todo momento as ações dos Benandantis, principalmente de seu pai, já que ele não acredita na existência de bruxas. Toda a misoginia da época é escancarada ao longo dos episódios. Um exemplo disso é Cesaria (Gloria Carovana), única mulher entre os Benandantis. Mesmo sendo a melhor integrante do grupo, ela não tem voz e não é aceita verdadeiramente no grupo. O pior disso é a forma como ela age, esperando algum tipo de aceitação ou validação dos caçadores de bruxas.

O clã de bruxas é sem dúvidas o melhor da série. Tebe, Janara (Federica Fracassi), Leptis (Lucrezia Guidone) e Persépolis (Adalgisa Manfrida) são ótimas juntas. Mostram toda uma união feminina em prol da causa das bruxas e lutam para salvar suas irmãs dos caçadores. Tebe e Leptis, inclusive, são parceiras e vivem um romance um tanto quanto conturbado. Janara é o braço direito de Tebe e uma guerreira formidável. Persépolis é uma bruxa poderosa que acaba se aproximando muito de Ade. A amizade e o laço entre elas funciona muito bem. Persépolis ainda vive um amor com Spirto (Filippo Scotti), amigo de Pietro. A irmandade entre as bruxas e toda a luta contra uma sociedade patriarcal é o maior trunfo da série. A cereja do bolo fica por conta do uso da magia e os confrontos entre bruxas e Benandantis.

Imagem: Lost in Cinema

Uma das coisas que a série deixa a desejar é em relação ao desenvolvimento do vilão Marzio Oreggi (Roberto De Francesco). Ele é o principal nome por trás dos Benandantis e além disso também é bruxo. Porém, é pouco explorado e ganha tons de coadjuvante. O roteiro é cheio de plot twists e inconsistências, como por exemplo o fato de Oreggi fazer magia na frente dos Benandantis e aquilo não ser considerado bruxaria. Toda a série é sobre os poderes de Ade, que no fim terminamos sem saber a dimensão de sua magia. Outro ponto é a profecia que as bruxas se apoiaram para acolher Ade e Valente. Muito pouco se é falado ou mencionado sobre durante os episódios, e do nada somos jogados na situação.

Luna Nera é uma série no mínimo interessante. Ela apresenta inúmeros temas pertinentes a uma época (e que, infelizmente, ainda vemos de outras formas em nossas sociedade), se apoia primordialmente em personagens femininas e flerta muito bem com o romance e a ficção, principalmente a ficção. Esses são fatores que dão um gostinho especial ao assistir à primeira temporada, que não deixa de ser um entretenimento gostoso e diferente. No entanto, o roteiro confuso atrapalha boa parte da experiência. Ao terminar a série, a sensação que fica é de que há mais dúvidas do que esclarecimentos sobre diversas questões que o enredo se propôs a narrar. Somos apresentados a diversos personagens e núcleos de histórias que o roteiro estabelece, porém pouco se é resolvido. Tudo fica muito aberto e sem uma conclusão que defina minimamente os pontos centrais da trama. A expectativa é que essas pontas soltas se resolvam em uma nova temporada, caso ocorra.

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